domingo, 30 de dezembro de 2012

Os 20 melhores albuns internacionais de 2012

Não considerei EPs, que tiveram diversos bons, especialmente o do Burial, melhor produtor de música eletrônica da atualidade, e uma grande novidade, do eletrônico também, uma confusãozinha sonora chamada trap do TNGHT. Pelican, pra mim uma das melhores bandas de rock instrumental, também lançou um material este ano.

Como de costume, fiz desta uma lista internacional, se fosse considerar o que foi lançado por artistas brasileiros, há diversos que têm qualidade para figurar num top também.

Por fim, para manter uma qualidade relativamente imparcial, fiz o top tentando enxergar a qualidade e impacto musical dos artistas, não apenas meu gosto pessoal, posto que de longe o album que mais ouvi no ano foi o do Band of Horses, mas ele não figura nem no top 10. E claro, também por isso, a lista pretende minimamente registrar o que de mais relevante se fez na música alternativa, e não simplesmente artistas irrelevantes que fui ouvindo por aí e gostei, por isso muitos albuns também foram citados pelas mais importantes mídias de música, sejam revistas, jornais e principalmente sites/ blogs especializados - não serei original neste ponto.

Posto tudo isso, mesmo com tanta limitação, não consegui de maneira nenhuma reduzir a centena de albuns que ouvi lançados este ano a um top 10, foi obrigado a fazer um top 20 para não cometer atrocidades de deixar os novos de Spiritualized, SwansBeach House por exemplo de fora de uma lista de melhores do ano.

E mesmo assim, não deu pra contemplar tudo. As menções honrosas deste ano ficam com 4 bandas:

O mais relevante deles sem dúvida, é aqui representado por um dos 2 albuns lançados este ano por eles, Death Grips - The Money Store. Agressividade define o som desta banda. É de quando eles ainda eram de uma gravadora, que depois brigaram, lançaram outro album violento, já na capa, que é uma genitália masculina e nada mais. Pra quem nunca ouviu, parece que estou falando de uma banda punk de sociopatas ou de metal pesadão, não, todo peso é de base eletrônica, e pode até figurar na sua baladinha de final de ano, desde que sua tia crente não esteja na pista.

Laurel Halo - Quarantine é um agradável album de eletrônico ambient para momentos introspectivos e de relaxamento, com uma certa melancolia e um vocal bem marcado. Difícil não agradar.

Após uma década de espera Fiona Apple - The Idler Wheel veio para nos mostrar uma mais madura e ainda bastante talentosa artista, com um vocal impecável. Bastante imperdível.

Também muito tempo depois, Godspeed You! Black Emperor - Allelujah! Don't Bend! Ascend! veio para suprir a demanda dos fãs de uma das bandas mais cult do fim dos anos 90.

Agora o que importa, obviamente tentarei ser mais breve e direto nos comentários devido o maior número de albuns.

20. Best Coast – The Only Place
indie/ pop
Estados Unidos
Album da banda que a vocalista é namorada do Wavves, é tipo a nata da nata do indie moderninho com base de violão californiano atual. O album é tão bonitinho e limpo quanto o anterior, apenas um pouco inferior. Inspirado no rock dos anos 60, um som para uma tarde ensolarada na Califórnia, mesmo que você esteja no Brasil e sua praia seja a Avenida Paulista.

19. Passion Pit – Gossamer
indiepop/ electronic
Estados Unidos
Alegria talvez defina este album. E já começo a análise assim pq este não é um sentimento muito abordado na música indie. Mas se o album anterior já era bom para dançar, este parece ser feito para, ao menos tentar, animar e agitar aquele que o está ouvindo.

18. Band of Horses – Mirage Rock
indie-rock/ country
Estados Unidos
Band of Horses mudou, e mudou muito. Talvez o que dê para reconhecer a banda e sabermos que é a mesma que lançou aqueles albuns indie-pop bonitinhos e introspectivos em 2006 e 2007, seja o vocal em tom forçado de Ben Bridwell. A já declarada inspiração em Neil Young se tornou mais que evidente, a ponto de me permitir ser bastante direto, se você gosta de Neil Young, ouça Mirage Rock. Um bom album de rock para ouvir no rádio do carro numa viagem de verão escaldante, principalmente se você estiver no meio do deserto.

17. Crystal Castles – III
electronic
Canadá
"Pale Flesh" tem uma das melhores batidas de um album eletrônico lançado este ano, ao lado de "Jupiters" do Four Tet. Para ouvir bem alto, com o bass do seu aparelho de som destacado. Um pouco inferior e com menos clássicos (músicas que perdurarão pelos tempos) do que o anterior, mas com uma sonoridade bastante parecida, e o vocal estridente de Alice Glass ainda presente.

16. Xiu Xiu – Always
indie/ experimental
Estados Unidos
Parece estranho falar isso, mas um album bastante seguro da experimental banda Xiu Xiu. Um dos melhores deles, sendo que o "barulho" está onde deveria estar. O single "Hi" é uma das melhores músicas já lançadas por eles.

15. Four Tet – Pink
electronic
Inglaterra
Se o Reino Unido tem uma forte cena eletrônica de artistas que surgem em seus pubs e conquistam o mundo, Four Tet é uma das causas disto. Um album um pouco diferente que pode não ter agradado o fã antigo, mas ainda com uma qualidade, agora com uma limpeza sonora que provavelmente agrada o ouvinte de música eletrônica, seja ela qual vertente. Exceto talvez o brostep que é uma porcaria.

14. Beach House – Bloom
indie/ dreampop
Estados Unidos
Mais um album calmo, bonito e introspectivo, que provavelmente agrada os mesmos fãs de Best Coast. Com um pouco mais de profundidade que o da banda que ocupa a última posição deste top.

13. Swans – The Seer
art rock/ experimental
Estados Unidos
Um dinossauro do rock alternativo nova yorkino, o Swans é um dos 3 albuns que mais fizeram o fã de música viajar pela psicodelia este ano. Os outros 2 a ocuparem esta lista são o do Spiritualized e do Tame Impala. A viagem maior aqui talvez seja pelo pé no noise experimental, o mesmo do Sonic Youth, que faz do instrumento musical uma extensão do corpo e a inspiração se torna ilimitada - nada mais que barulho, dirão os com menor senso artístico. Em meio a tanta barulheira e experimentação, a calma "Song for a Warrior", com a voz aveludada de Karen O (Yeah Yeah Yeahs) chama atenção.

12. Spiritualized – Sweet Heart Sweet Light
indie-rock/ dreampop
Inglaterra
Outro dinossauro do rock, uma das mais importantes e influentes bandas alternativas, com um album que já foi lançado como clássico e poderia muito bem ser dos anos 90, quando a banda estava em seu auge.


11. The XX – Coexist
indie/ electronic
Inglaterra
Intimista é a palavra que melhor define o som do grupo. Já cheguei a ler uma entrevista relativamente estranha em que eles diziam que não gostavam que sua plateia cantava suas canções, a causa até era nobre, é que eles acreditam que nem todo mundo do público está lá para cantar e sim para ouvir, e a audição é prejudicada pela cantoria desafinada da pessoa que está do seu lado na plateia. Isso parece ter se tornado algo mais importante neste album, as batidas eletrônicas diminuiram, causa ou consequência da qualidade das letras ter melhorado (não que antes fosse ruim, muito longe disso), por vezes sussurros embalam uma bela e romântica letra, que devem se tornar quase inaudíveis em shows ao vivo de fato. Um bom album pra ouvir numa noite escura, sozinho em seu quarto.

10. The Walkmen – Heaven
indie/ rock
Estados Unidos
Talvez falte algum grande hit, algum grande clipe, talvez não falte nada além de sorte. Mas falta pouco para The Walkmen ser reconhecida como tão grande e relevante como as outras bandas de indie rock da atualidade, como Franz FerdinandArcade Fire, e para não sair de Nova York, The National. O que não falta para The Walkmen é uma qualidade sonora, e um vocal em tom grave que levam a um album bastante introspectivo.

9. Bat for Lashes – The Haunted Man
pop/ indie
Inglaterra
Artista plástica, multi-instrumentista, boa atuação em clipes: criatividade e talento definem Natasha Khan. Uma Bjork menos maluca, e com um som também menos experimental e bastante palatável, mas sem apelar para uma sonoridade comercial e superficial, a prova disso é uma das mais belas e profundas músicas do ano, "Laura", com esta canção aliás, acredito que Bat for Lashes tenha alcançado um nível de qualidade musical que ainda não existia no album anterior.

8. Tame Impala – Lonerism
indie/ psychedelic
Austrália
Sem ser lá muito experimental ou noise como Swans, o Tame Impala parece, por meio de um som limpo, ser uma das melhores bandas da atualidade para se viajar, sem sair do lugar, enquanto se ouve. Da atualidade, mas figuraria muito bem em uma turnê com Cream, Grateful Dead e Jefferson Airplane, mantendo viva a chama da psicodelia no rock, combinação que sempre deu muito certo.

7. The Weeknd – Trilogy
alternative rhythm and blues
Canadá
Abel Tesfaye é provavelmente um nome que você nunca ouviu, muito porque Abel é alguém que definitivamente não faz questão de ser visto. Com muito custo gravou o clipe da maravilhosa canção "Wicked Games", mas em geral quer se manter distante dos holofotes e das câmeras. Chegou a deixar Wiz Khalifa na mão e não apareceu para gravar sua parte no clipe de "Remember You. Mas pq citá-lo e não todo seu trabalho ou a produção em suas canções? Porque seu talento e seus atributos vocais são absolutamente incomuns. A música se torna introspectiva, visceral e mais do que isso, bastante pessoal, sentimentos são tratados do começo ao fim do album, problemas com relacionamentos, uso de drogas e os relatos da vida de um jovem diante dos problemas psicológicos ao enfrentar a vida. O album Trilogy é na verdade uma coletânea, a partir dos 3 albuns que ele lançou o ano passado. Se talvez mais de 1 deles mereciam aparecer em um eventual top 20 do ano passado, seguramente os 3 juntos merecem figurar num top e mais do que isso, merecem que você o ouça. Outra breve indicação, a parceria dele com o Drake, que saiu no album do Drake, na canção "Crew Love" é uma das melhores dos últimos tempos.

6. Grizzly Bear – Shields
indie/ post-rock
Estados Unidos
Nova York, mais especificamente o Brooklyn, é mesmo o melhor lugar do mundo na atualidade para se ouvir e fazer música indie. O último album do absolutamente criativo grupo Grizzly Bear provavelmente agradará os que gostaram dos 2 albuns lançados pelo The Antlers nesta década, no mesmo Brooklyn. Introspectivo, e com trechos que lembram o post-rock, uma guitarra distorcida e bastante intensidade, definem este album.

5. Purity Ring – Shrines
indie/ electronic
Canadá
Grata surpresa o album de estreia do Purity Ring. Chamou-me bastante atenção a primeira canção que ouvi, e o album mantém o mesmo nível da primeira à última canção. Envolvente e introspectivo, pode oferecer uma boa dose de arrepios aos que o ouvem, seria o sucessor eletrônico bonitinho do ano ao do M83 de 2011, com o plus de ter um vocal suave feminino.


4. Kendrick Lamar – Good Kid, Maad City
alternative rap
Estados Unidos
Um maravilhoso e envolvente album que soa bastante parecido com os raps old school dos anos 90. Por este único motivo poderia parecer que é um album que peca em originalidade, mas eu encaro como uma volta às origens de um estilo que por vezes se perde em bobagens comerciais e músicas vazias para dançar, nada a ver com a contestação e certa agressividade das suas origens, que Kendrick Lamar recuperou. Além disso, a temática se torna bastante atual, como que com um protagonista passando por diferentes fases e problemas em sua vida, como o alcoolismo, sem deixar de lado a fé.

3. Frank Ocean – Channel Orange
alternative rhythm and blues
Estados Unidos
Uma vez tive o desprazer de ler um "crítico" brasileiro falar que o grupo coletivo de rap OFWGKTA era apenas uma bobagem irrelevante de jovens que não tinham o que fazer e ocuparam seu tempo fazendo música ruim pra outros jovens gastarem seu tempo ouvindo uma bobagem. Um ano depois Frank Ocean, num caminho oposto ao agressivo album de Tyler The Creator - até então o rapper mais famoso do grupo, nos agracia com uma verdadeira obra-prima do rhythm and blues contemporâneo. Tem tudo o que um bom album precisa ter, produção de qualidade, boa temática, boas letras, e principalmente, o talento no vocal afinado do artista. Considero "Pyramids", em todos os seus 10 minutos, especialmente a 2a parte, a melhor música do ano.

2. Grimes – Visions
experimental/ electronic/ pop
Canadá
Quando a Claire Boucher lança um album mais pop do que seus anteriores, indo talvez no caminho oposto ao seu trabalho de esquisitices e experimentação sonora, eis que parece que ela encontrou exatamente a sonoridade perfeita para seu trabalho, e o pop parece que era o que faltava, uma pitada no outro lado da balança para fazer um album que seguramente perdurará pelos anos. Um album leve, muito bom para dançar, com boas batidas, e ainda assim com letras por vezes indecifráveis (isso quando em inglês), e experimentações.

1. Chromatics – Kill for Love
indie/ electronic
Estados Unidos
Fiquei com uma certa dúvida se consideraria este ou o da Grimes o melhor do ano. Aquele mais abstrato, este mais seguro. Aquele mais agitado, este bastante instrospectivo. Instrospecção, foi o que me fez chegar a um veredito. A música tem a condição de provocar sentimentos nas pessoas, ou de ajudar as pessoas a exteriorizá-los. Este album do Chromatics é um prato cheio para quem não está no melhor de seus dias, mas parece precisar de algo que o faça sentir vivo, sentir a intensidade da vida. E se um album consegue fazer isso perfeitamente, elevar a arte ao campo do sentimento, fazer o ser humano entrar em contato com a sua própria existência e essência, tenho certeza que este é o sim o melhor e mais profundo album do ano.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Os 10 melhores albuns internacionais de 2011

Como toda lista, tem suas falhas, a principal delas é que em um ano com centenas de artistas surgindo e lançando seu material na Internet, sempre muita coisa boa e relevante vai ficar de fora. Tentei equilibrar uma certa atenção a artistas consagrados, que não tinha como deixar de fora, e destacar artistas novos, que muitos bons lançaram seus materiais este ano.

Antes preciso tecer alguns comentários sobre aqueles que não entraram na minha lista por detalhe, e provavelmente figurariam entre os 20 melhores do ano.

Um artista que surgiu em 2011 e pode ser alvo da atenção da mídia nos próximos anos, é o The Weeknd, com seu rnb cheio de sentimento e letras fortes, que lançou não um mas três álbuns neste ano. E o destaque, House of Balloons, tem suas músicas em média com 6 minutos de duração, portanto trata-se de alguém que tem e provavelmente terá muito a dizer.

Prosseguindo nos artistas que lançaram mais de um álbum no ano, um já bem consagrado, o Joan of Arc, que surgiu da legendária Cap'n Jazz, lançou dois bons álbuns, um um pouco mais barulhento e outro mais seguro, dentro das experimentações que o gênero permite.

Um artista me chamou muita atenção este ano, com uma combinação que costuma dar certo, a batida rock e os sintetizadores, desde o tempo de tantas bandas, talvez a mais famosa delas o New Order: ele é John Maus, com seu canto de tom forte We Must Become the Pitiless Censors of Ourselves é obrigatório para quem aprecia um que se convencionou chamar de rock eletrônico.

Tyler, The Creator e seu Goblin fez uma nova leitura para o rap, o que eu ousei chamar de rap niilista, e já cheguei depois a ler o termo em reviews por aí. Uma música self-made, de um grupo, uma gangue, que tinha algo a dizer, e teve que buscar sua maneira de se expressar. A agressividade e falta de perspectiva adolescente parece não ter nenhum tipo de limite ou escrúpulos: as letras falam de desrespeito, violência e anti-religiosidade, e, em nenhum momento, criticam tais atitudes. A música aqui usada para a expressão de sentimentos, alguns destes que talvez não estejamos muito acostumados a ver em música, mas que cumpre aqui seu papel de arte e de liberdade de expressão.

Um imperdível é o Several Shades of Why de J Mascis, aqui pegamos o Dinosaur Jr e tiramos a banda, tiramos o peso. O que fica? Fica a voz única de J Mascis e toda sua introspecção pra compor. Um álbum intenso, para momentos introspectivos: não é exatamente isso que o Dinosaur Jr. faz?

O slowcore nunca saiu muito da obscuridade, e dentro desse underground dá pra encontrar artistas extremamente profundos e de qualidade, um deles é o Low, com seu álbum C'mon. A música é lenta, o vocal é lento, tem momentos em que não precisa ser mais rápido do que isso. E às vezes não há força pra isso.

E por fim, mas talvez mais importante, sinto-me na obrigação de citar o trabalho novo do Kasabian, Velociraptor! - das bandas famosas que carregam o status do chamado indie rock (apesar de que sempre será uma grande incoerência chamar bandas de gravadora de independente, logo, sem gravadora) que lançaram álbum este ano, a única que definitivamente não decepcionou foi o Kasabian. Um álbum intenso com os instrumentos em excelente sintonia, com algum leve toque eletrônico, sem precisar apelar a melodias extremamente pops e comerciais. Algumas músicas têm potencial para se tornarem clássicos, como algumas músicas de álbuns anteriores deles já se tornaram.

O que há de se lamentar este ano é o que já se havia de lamentar o ano passado, bandas que se aproveitam de um estilo que está em voga para lançar um material pré-moldado e comercial para agradar os adolescentes sem identidade que consomem uma falsa arte. Foster The People é pro indie hoje uma triste realidade de uma típica boyband se passando por um estilo que já teve lendas como Pavement, Pixies e Dinosaur Jr., apenas para vender.

Como tudo o que é bom tende a ser desvirtuado, uma vítima disto foi o recente estilo dubstep. Que já virou moda de adolescente com o surgimento de produtores lixos como o Skrillex e provavelmente sofrerá nesta década com remixes e péssimas canções.

Sem mais delongas...


10. Bright Eyes - The People's Key

indie/ rock
Estados Unidos

Encaremos a verdade, Bright Eyes não é mais aquela banda folk instrospectiva, de voz (e que voz sofrida) do Conor Oberst, com um violão melancólico. Bright Eyes já foi pro eletrônico, já versou com o country, e agora voltou com um bom álbum de rock. Guitarra, baixo, bateria, e um som intenso, que ganha forma com boas letras, como Conor Oberst sabe fazer muito bem. A identidade, digamos, sofrida da banda permanece lá, portanto acredito que trata-se ainda de um bom álbum da boa banda Bright Eyes.


9. Radiohead - The King of Limbs

electronic/ experimental
Reino Unido

Se Radiohead é hoje uma das bandas mais conceituadas da história, muito disto se dá pela quase inquietação que eles têm com seu próprio estilo, reinventando-se a cada álbum. Noto dois grandes momentos de mudança na banda: após o estrondoso sucesso de Ok Computer (diga-se de passagem, um álbum que apesar do sucesso, tem uma qualidade incontestável, não há sonoridade comercial para vender, há inclusive barulhos, esquisitices e o sentimento de angústia como só eles sabem fazer) eles resolveram cair nas graças do eletrônico e lançaram o meu favorito, Kid A, que mais uma vez vendeu muito, o que dessa vez os incomodou, assim vindo o Amnesiac, aí sim um álbum muito estranho, com experimentações e um nível de criatividade que eles já tinham demonstrado anteriormente. Após este divisor de águas, e outras 3 obras-primas lançadas, um novo álbum sai completamente de qualquer reta que eles traçaram anteriormente: mais uma vez há uma maior presença eletrônica, inclusive pela influência do britânico estilo dubstep, em que o Thom Yorke viria a mergulhar de cabeça lançando ainda este ano músicas com Burial e Four Tet (imperdível). Não é um dos melhores da banda, mas mesmo assim foi o suficiente para colocá-los entre os melhores do ano, de novo.


8. Bill Callahan - Apocalypse

folk/ lo-fi
Estados Unidos

Este é sem dúvida um dos nomes que carrega o folk atual nas costas, e pra um estilo que já teve Bob Dylan e Nick Drake, haja responsabilidade. Mas até por se tratar de alguém maduro, isso parece não ser nada para ele. Com um álbum absolutamente memorável, e uma das mais belas e intensas músicas já produzidas (Riding for the Feeling), Bill Callahan está aí para mostrar que muito ainda pode ser feito apenas com voz e violão. E talento. E criatividade. E intensidade. E boas letras. E...


7. M83 - Hurry Up, We're Dreaming

electronic/ newgaze
França

Este sugestivo nome nos dá uma leve ideia do que a banda parece fazer com seu ouvinte, levá-lo a um lugar em que ele não está acostumado a estar, ao menos acordado. Um shoegaze eletrônico, introspectivo e sutil, faz desta uma banda única. Como nem tudo pode ser perfeito, o longo álbum, ao meu ponto de vista, é ligeiramente inconstante e poderia sim ter sido enxugado. Mas como se trata de uma inconstância entre o excelente e o bom, é o suficiente para ser lembrado como um dos melhores do ano.


6. Bon Iver - Bon Iver

indie/ folk
Estados Unidos

Prefiro não entrar na questão de dizer se é melhor ou pior que o anterior, mas é notável que o som deu uma ligeira mudada, portanto se faz necessário uma breve comparação. For Emma Forever Ago impressionou pela sua sinceridade e intensidade, um álbum temático, praticamente direcionado a uma pessoa e de caráter extremamente intimista. Neste de 2011, não é só o violão que dá o passo, o som parece estar mais cheio, novos instrumentos são mais facilmente notados. O vocal sutil em falsete ainda dá a identidade à banda, mas os caminhos continuam sendo trilhados. Assim como dois amantes que terminam seu relacionamento, e precisam tentar dar continuidade a suas vidas.


5. Girls - Father, Son, Holy Ghost

indie/ rock
Estados Unidos

Aparentemente mais uma banda com um som já visto antes e uma temática já vista antes - aliás, em alguns momentos parece que estamos de fato em outra década, a atmosfera de décadas, principalmente a de 60 e a de 80 fazem-se presentes no album. A diferença é que eles provam que ainda é possível fazer um álbum muito bom, e ser criativo tratando de temas batidos como a saudade de uma pessoa e as inseguranças da vida.


4. The Pains of Being Pure at Heart - Belong
Photobucket
indie/ shoegaze
Estados Unidos

Quando falo que Loveless do My Bloody Valentine é o melhor e mais influente disco da história da música alternativa alguns contestam. 20 anos depois do lançamento desta obra-prima incomensurável, ainda há gente fazendo sucesso bebendo desta fonte. Este ano, entre os 10 melhores, são duas bandas (a outra é M83). Duas bandas de ascendente sucesso: Uma delas é The Pains of Being Pure At Heart. Um maravilhoso e genuíno álbum shoegaze, com o que o estilo precisa ter para ser bom, muita distorção, introspecção e o vocal feminino dando o ar sutil do dreampop em contraposição a toda a intensidade. O que My Bloody Valentine fez há 20 anos atrás, mas ainda é tão bom de se ouvir...


3. The Antlers - Burst Apart
Photobucket
indie/ slowcore
Estados Unidos

The Antlers sofreu com Burst Apart o que costumo observar com bandas que estreiam com uma obra-prima, o segundo trabalho obviamente é ofuscado pelo primeiro. Mas como em vários outros exemplos, o segundo é sim um excelente trabalho, que apenas não alcançou o patamar de qualidade que a própria banda alcançou no anterior, e não deve ser prejudicada por isso! The Antlers tem ainda um certo fardo de ter o poder de levar o slowcore para um público maior: estão no limite que acredito ser cabível a este estilo underground, mais um passo em direção a sonoridade pop podem encontrar uma situação delicada de desvirtuamento do gênero, o que, ainda, não é o caso.


2. St. Vincent - Strange Mercy
Photobucket
art rock/ indie
Estados Unidos

Ela já trabalhou com Sufjan Stevens e Bon Iver, só por isso já dá pra ter noção de que pouca coisa não é. Strange Mercy tem de predominante a voz forte, intensa e bela de um moça em que o talento não fica só na voz. As composições tem quebras rítmicas e batidas diferentes, que fazem deste um álbum único. Uma releitura de uma criatividade que a Bjork já demonstrou anos atrás, está aqui mais atual que nunca.


1. James Blake - James Blake
Photobucket
post-dubstep/ soul
Reino Unido

Antes de iniciar o posicionamento dos artistas que escolhi listar entre os 10, um eu tinha certeza absoluta, já há alguns meses, que consideraria o melhor do ano: James Blake.
O dubstep, com sua imensa emissão de graves, é um gênero musical que pode ser fisicamente sentido,a partir das ondas sonoras, pela pele das pessoas (a brincadeira é feita em um clipe do artista, em que copos com água tremem ao som de uma de suas canções). Por que não unir um estilo tão sensitivo a uma forte carga emocional? James Blake fez isso. Incorporou letras ao gênero, letras pessoais, letras que tratam de amor. Uniu o soul ao dubstep. De um talento único, não apenas na produção mas também no canto.
Não só por este álbum, mas por outras músicas que ele foi lançando ao longo do ano, por ser apenas um garoto, e pelo que está gerando na indústria musical, é uma aposta para ser um dos grandes nomes da música internacional ao longo dos anos.

Que venha 2012.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Wipers - Youth Of America (1981)

A juventude é passageira. É a melhor e a pior época da vida de uma pessoa. Coisas que você faz nessa época nunca mais poderá fazer. Junto das ações vêm os sentimentos, e essa é a parte difícil. A juventude parece carregar junto dela uma interminável sensação de angústia, ansiedade. Já é difícil o jovem conseguir se preocupar como será a sua própria vida no futuro; colocar todas as responsabilidades nas costas da juventude é imprudência e comodismo. Se esse é o futuro da América, a sociedade está definitivamente fadada a se manter onde sempre esteve: em meio ao caos.



Quando a faixa intitulada Youth Of America começa é como se um hino começasse. Porém é um hino que não emociona milhões. À época não agradou nem aos fãs do gênero. É uma música punk com 10 minutos de duração, quando todas bandas do gênero faziam músicas de 2 minutos. Contando com mais acabamento, diferentes referências musicais e uma certa profundidade, o Wipers definitivamente não é uma banda de punk comum.

O que o Wipers tem de importante e influente, tem de underrated. Boa música não sai do metrô e entra em iPod's sozinha. Quem ainda não conhece, e é fã de Nirvana e Dinosaur Jr, é uma boa oportunidade.


punk/ indie

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Amesoeurs - Amesoeurs (2009)

A noite não termina nunca. Assim como a dor, a saudade, a ausência dela. O espaço físico do quarto se torna uma prisão, uma solitária, um inferno. Quando chega o dia, é hora de fechar as janelas. E ir dormir. Ir dormir e esperar não acordar mais. Para não passar tudo de novo. Se o mundo que conhecemos hoje se tornou uma maneira de vida que não agrada, não há o que fazer, não existe escolha, não existem meios de modificá-lo. O escapismo é recoberto de uma forte sensação de baixa auto-estima, de fraqueza, de incompetência.



A música introspectiva chega a um nível jamais alcançado. O tema da tristeza é ainda tratado com obscuridade e melancolia, mas recebe agora um tratamento de agressividade. Não que houvessem forças para lutar contra a depressão, mas trata-se do puro e cru desespero humano diante de uma vida que não o agrada em definitivo. O black metal deixa de tratar apenas de temas anti-religiosos, e foca-se nos sentimentos terrenos. No caso do Amesoeurs ainda há uma certa sonoridade influenciada pelos anos 80 (a fase obscura dessa década, obviamente). O que o torna uma banda única.

É a visível evolução do rock. A mesclagem de estilos, o firmamento de um gênero outrora muito mais agressivo, agora com um toque de melancolia. Muito além do que o doom metal alcançou. Uma de outras bandas francesas a fazer esse estilo, o vocal feminino de Audrey Sylvain dá um toque especial ao Amesoeurs - banda atual do já conhecido Neige (Alcest, banda que também inusitadamente vai do black metal ao shoegaze). Um dos melhores albuns de 2009.


depressive black metal/ post-punk

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Carissa's Wierd - Songs About Leaving (2002)

A chegada, a permanência, a saída. Ser notado por alguém. Ser importante para alguém. Se sua existência na Terra faz-se indispensável para uma pessoa, talvez sua missão aqui já esteja completa. Se você decepciona tal pessoa, não se faz mais necessário, é bem provavel que sua consciência não ficará tranquila nunca mais. Se a pessoa te decepciona, ficarão na lembrança os bons momentos. E ir embora será mais difícil. O ser humano não foi feito para suportar situações emocionais extremas. O ser humano é fraco. Amar uma pessoa, se separar dessa pessoa. A despedida de alguém importante é um dos momentos mais difíceis que se pode enfrentar. Não conseguir acreditar. Continuar ou cometer o suicídio. O ser humano não pode ser punido por ser fraco.



O tema é explicitado no próprio título da obra. Mais a forte presença do violão, o sempre melancólico violino, algum piano, uma bateria leve, um maravilhoso vocal feminino para dar um toque de maior suavidade em algumas músicas. E uma estranha sensação de tranquilidade. A dor já não incomoda mais, há a apatia. Ou talvez a sensação de choque ao receber o inesperado adeus.

Um dos albuns mais tristes e intensos da história da música, de uma banda que já deixava saudades antes mesmo de ter terminado. A geração de weirdos fãs do Radiohead, dez anos depois, ficaria sem essa outra banda para cultuar. Já estava aí o prenúncio do fim. O que fica é a mais pura expressão de insatisfação, que pode servir de alívio para algumas pessoas esquisitas. Pois talvez seja esquisito mesmo certas preocupações e certa importância dada a sentimentos que poucos se importam no mundo contemporâneo.


slowcore/ sadcore

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Pelican - The Fire In Our Throats Will Beckon The Thaw (2005)

Certas sensações só ocorrem com certas pessoas. Algumas pessoas passam a vida inteira lidando com situações extremas, as quais se tornam entediantes. Outras vivem as mesmas situações, mas cada uma delas se tornam experiências diferentes, intensificadas com o tempo. Outras pessoas são privadas de sensibilidade. Seja por elas próprias, seja pelo meio. A aurora boreal só acontece no hemisfério norte, o que não quer dizer que só quem está lá pode um dia presenciá-la. Não precisa ser verão no hemisfério norte para fazer frio no sul. Não precisa chover para se presenciar um arco-íris. Para se buscar ver um arco-íris. Onde termina o arco-íris? Até onde a música pode levar? The Fire In Our Throats Will Beckon The Thaw provavelmente é um dos lugares mais distantes que alguém já foi, ouvindo música.



O album do Pelican parece agir diretamente no sistema nervoso. Da intensidade a alguns momentos de calmaria, o ouvinte é transportado a diferentes sensações. Como as diferentes estações do ano, os diferentes fenômenos da natureza, a música atinge uma proposta que só a ousadia humana poderia proporcionar. E mostra que não é necessario um vocalista utilizando-se de berros para se fazer um album pesado. Aliás, não é necessario nem ao menos um vocalista para se fazer um album intenso.

Mais inovador do que experimental, o album é marcado por uma certa temporalidade. Músicas com 10 minutos que não parecem se perder em um caminho sem direção. Tudo parece estar onde deveria. E tudo termina no nada. Como uma estação do ano bem definida, que se vai. Para começar no outro hemisfério. Para voltar no ano que vem.


instrumental rock/ metal

sábado, 6 de fevereiro de 2010

The Jesus And Mary Chain - Darklands (1987)

Pessimismo, desconforto, indecisão, dor. Envolvidos por um som melancólico. Se já não há mais nada na Terra que proporcione uma possibilidade de felicidade, talvez haja uma alternativa distante. Um lugar muito longe dos holofotes que externam a incapacidade individual de lidar com seus próprios sentimentos aos outros seres humanos. Um lugar que talvez só exista na mente dos que sofrem. Um lugar obscuro, frio, porém dizem que o Inferno é quente. Haveria no entanto a ausência do dia, do Sol, e uma constante chuva viria para lavar a alma das pessoas que estivessem nessa situação. Uma zona de (des)conforto. Conformismo em sua própria insatisfação, por medo ou incapacidade de lidar com certos problemas.



Um pouco diferente sonoricamente do clássico predecessor Psychocandy, os irmãos Reid tomaram um caminho mais melancólico para esse album. Há inclusive uma notável distorção nas guitarras, que seria influência para o tão magnífico estilo shoegaze. Se o vocal é calmo, e quase sempre mantém o mesmo tom, os ruídos na harmonia continuaram lá, como se de alguma forma o desconforto tivesse que se fazer necessário não só nas letras, mas também no som.

Trilhando o caminho contrário do que era o mainstream dançante pop dos anos 80, Jesus And Mary Chain é o exemplo máximo do que o post-punk dos Smiths, Cure e Echo And The Bunnymen foi para uma geração. Pessoas que não se adequavam ao colorido de sua própria época, e imortalizaram o lado obscuro dos anos 80, abrindo portas para a década em que o melancólico (com o grunge) assumiu a frente do mainstream, os anos 90.


post-punk